Teste de Desenho de manhã. Espero sair de casa ainda com quinze minutos de antecedência mas falta qualquer coisa - falta sempre qualquer coisa. Aproximo.me da paragem, já em passo nervoso e apressado.. e é a poucos metros de mim que vejo o autocarro passar à minha frente. Uma questão de segundos e estava lá. Uma questão de segundos e teria apanhado o transporte seguinte também a tempo, não teria esperado mais um quarto de hora e, em suma, não teria transformado a falsa precaução inicial em dez minutos de atraso fundamentais ao teste.
Regresso a casa e mais uma crónica de autocarro. O mesmo cenário da manhã, com a única diferença que acompanhada de cansaço, a braço dado com as minhas invulgares (mas que já fazem hábito) grande mala a tiracolo de portátil incluido num lado, e descomunal pasta de desenho com respectivos trabalhos no outro. E desta vez corri - mas corri a sério.
Sim, lá acabei por entrar - por uma questão de segundos - mas só depois de todas aquela panóplia objectos me baloiçar desajeitadamente nas mãos, de chegar esbaforida e, enfim, completamente desgastada e envergonhada perante transporte cheio que me observava e fazia lembrar de outras corridas do mesmo género em tempos mais ingénuos.
Fim do dia. Esperamos libertármo.nos das malas e roupas que carregamos quando chegamos por fim a casa e de libertármor.nos, por arrasto, desses pensamente sujos e acumulados ao longo de um serão rotineiro particularmente cansativo.. mas era tempo de voltar a sair e sim, queria - tinha - de provar que conseguia chegar cedo, que era desta vez. Estava pronta, meti.me no carro. Era um percurso muito curto, por amor de Deus, porque é que nunca mais conseguira chegar a horas? E tinha de o fazer, tinha de provar que pelo menos estava lá a tempo, mesmo que se resumisse tudo a isso mesmo..
Saí do carro e, acto contínuo, vejo a figura encapuzada a passar por mim. Mas literalmente uma figura encapuzada sem cara que sabia quem era. Passava.. mas já ia na direcção oposta, afastado o suficiente para que não me pudesse dirigir a ela sem um desvio - e para um desvio precisava, perante a minha consciência, de um pretexto racional.
E por isso vi a criatura afastar.se perante aquele momento de pura ironia, de alguém que não minha, enquanto o meu olhar a seguia sem sequer ter a certeza concreta e confirmada de quem era. Suspirei e revirei os olhos - por uma questão de segundos. Ajeitei a maldita capa do britânico e prossegui caminho.
E tempo.. mais que graciosidade ou ousadia ou o quer que seja que eu ande a remoer em filosofias teóricas privadas, é o elemento importante por detrás dos outros.
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